A Martha, uma amiga zimbabweana dos tempos da universidade, manda-me uma mensagem assim: "Tio Dino, mande-me combustível!". Não tendo entendido, respondi e, na troca de mensagens, fiquei a saber que no Zimbabwe estava a faltar combustível nas bombas. Isto era em 2019.
Nessa mesma altura, em Moçambique, havia uma certa normalidade no abastecimento. A Martha queria que eu comprasse combustível aqui e lhe enviasse de alguma forma. Claro que não era logisticamente possível, mas o que me ficou foi a imagem de uma amiga a pedir ajuda para uma coisa tão básica como poder abastecer o carro.
O silêncio das filas
Hoje, passados alguns anos, são os moçambicanos que fazem filas intermináveis nas bombas de combustível. O silêncio das filas é ensurdecedor. Não é o silêncio da paciência — é o silêncio da resignação. As pessoas já não discutem, já não perguntam quando vai chegar. Simplesmente esperam, olham para o telemóvel, ou dormem dentro do carro.
O que me perturba não é a falta de combustível em si — são ciclos económicos, dependências de importação, crises cambiais, mil razões que os economistas sabem explicar. O que me perturba é o silêncio. A ausência de indignação colectiva. A normalização do inaceitável.
"Uma sociedade que normaliza o inaceitável está a preparar o terreno para aceitar coisas ainda piores."
A economia do improviso
À volta das bombas, surge uma economia paralela. Jovens com garrafões vendem combustível a preços inflacionados. Taxistas cobram uma taxa de "combustível" extra. Pequenos comerciantes encerram mais cedo porque não conseguem abastecer os geradores. A cadeia de impactos é invisível nas estatísticas mas visível na rua.
O que me pergunto, enquanto economista, é quanto custa realmente esta crise ao país — não em termos macroeconómicos, mas em termos de horas de trabalho perdidas, de negócios fechados prematuramente, de estudantes que não conseguiram chegar à escola. Esse número, ninguém o calcula. Ou se calcula, ninguém o publica.
E o silêncio das bombas continua.