Uma investigação do Confidencial revela que parte das reservas em resorts de luxo localizados em Moçambique pode ser paga directamente para empresas e contas bancárias sediadas em Jersey, Maurícias, Dubai ou África do Sul. Os documentos analisados mostram que estadias avaliadas em dezenas de milhares de dólares podem ser processadas fora do sistema financeiro moçambicano, levantando dúvidas sobre como essas receitas entram - ou se entram - no circuito fiscal e cambial do país.

O helicóptero levanta voo em Vilankulo e em poucos minutos o continente desaparece no horizonte. Lá em baixo, o Índico abre-se em tons de azul turquesa e areia branca. À frente surge Benguerra, uma das ilhas mais exclusivas do turismo de luxo em Moçambique. Para muitos visitantes internacionais, é a promessa de um paraíso quase intacto: praias isoladas, villas privadas, refeições servidas à beira-mar e dias inteiros sem qualquer sinal de cidade.

Cinco noites numa dessas villas podem custar mais de 13 mil dólares, incluindo o transfer de helicóptero a partir de Vilankulo.

Foi essa a cotação recebida pelo Confidencial depois de simular uma reserva num dos resorts mais exclusivos da costa moçambicana. À primeira vista tratava-se apenas de mais uma experiência de turismo de luxo num dos destinos mais caros do Índico.

A factura enviada pelo resort incluía tudo o que se espera numa reserva deste tipo: datas de estadia, descrição da villa, condições de cancelamento e o valor total da viagem.

Mas ao chegar à secção dedicada às instruções de pagamento surgiu um detalhe inesperado.

O beneficiário da transferência não era o resort em Moçambique.

A factura indicava que o pagamento deveria ser feito para Indian Ocean Eco-Islands Ltd, uma empresa sediada em St Helier, Jersey, nas Ilhas do Canal, um território europeu conhecido pela sua legislação fiscal extremamente favorável.

O documento incluía ainda uma nota clara: “Payee: Indian Ocean Eco-Islands Ltd (note NOT Azura)”.

Ou seja, o pagamento não deveria ser feito para o resort localizado em Benguerra.

A transferência deveria ser enviada para uma empresa localizada a milhares de quilómetros da praia onde o turista iria passar férias.

Foi esse detalhe que transformou uma simples reserva de hotel numa investigação, pois Jersey desenvolveu uma legislação fiscal muito flexível. A taxa de impostos sobre empresas é de 0%, salvo duas excepções: companhias que oferecem serviços financeiros (10%) e fornecedoras de água ou energia (20%). A taxa máxima de imposto de renda é fixada em 20%.

Seguir o dinheiro

Para compreender como funcionam os circuitos financeiros do turismo de luxo na costa moçambicana, a redacção decidiu testar o sistema da forma mais simples possível: vestir a capa de turista. Durante várias semanas o jornal simulou reservas em diferentes resorts de alto padrão da costa moçambicana.

Os pedidos foram enviados exactamente como qualquer visitante internacional faria: directamente para os departamentos de reservas das próprias unidades, através de e-mails institucionais e formulários oficiais disponíveis nos seus websites.

Não foram utilizadas agências de viagem nem plataformas intermediárias. O contacto foi directo entre o potencial cliente e as unidades turísticas. As reservas simuladas incluíam datas de estadia, número de hóspedes e tipo de acomodação.

Cada resposta recebida foi documentada: cotações, facturas proforma e instruções de pagamento. Em pelo menos cinco casos, foram fornecidos dados bancários completos.

O objectivo era simples: seguir o dinheiro desde o momento da reserva até à conta bancária indicada para o pagamento. À medida que as respostas começaram a chegar, surgiu um padrão inesperado. Em parte do turismo de luxo moçambicano, o visitante dorme no país, mas o dinheiro da viagem pode começar o seu percurso noutro lugar.

Nos dias seguintes começaram a surgir novas respostas. Algumas indicavam contas bancárias domiciliadas em Moçambique. Outras apresentavam instruções de pagamento localizadas fora do país. Numa cotação, a transferência deveria ser feita para uma empresa sediada nas Maurícias. Noutra, a conta indicada estava registada no Dubai. A reserva de um hotel numa ilha moçambicana começava, afinal, por uma transferência internacional.

O circuito do dinheiro

Uma reserva internacional num resort de luxo pode parecer uma transacção simples entre um turista e um hotel. Na prática, o processo envolve frequentemente várias entidades localizadas em diferentes países.

O cliente inicia a reserva através de um website, por e-mail ou através de uma plataforma internacional de reservas. O pedido é processado por sistemas centralizados que podem estar sediados em centros corporativos fora do país onde o hotel opera.

Em muitos casos, a confirmação da reserva e a emissão da factura são feitas por uma entidade comercial do grupo responsável pelo marketing internacional e pela gestão financeira. É nesse momento que o circuito do dinheiro pode mudar de geografia.

O valor pago pelo turista entra primeiro numa conta bancária dessa entidade internacional antes de qualquer transferência para a unidade turística onde o hóspede irá ficar.

No primeiro caso analisado pelo Confidencial, a reserva de cinco noites numa villa em Benguerra resultou numa factura que instruía o pagamento para uma empresa sediada em Jersey.

Outras reservas analisadas pelo Confidencial revelaram circuitos financeiros igualmente internacionais. Uma cotação enviada pelo resort Santorini Mozambique indicava que o pagamento deveria ser efectuado à empresa Pansy Shell Limited, com conta bancária nas Maurícias, para uma estadia de cinco noites avaliada em 6 224 dólarespara duas pessoas.

Noutro caso, uma cotação enviada pelo Kisawa Sanctuary, no arquipélago de Benguerra, apresentava um pacote de cinco noites avaliado em 31 864 euros, processado através da empresa Dodeca Reservations FZ LLC, sediada no Dubai.

Em ambos os casos, tal como na factura analisada para o Azura Benguerra, o pagamento da reserva internacional podia ser direccionado para entidades localizadas fora de Moçambique.

Os documentos analisados pelo Confidencial mostram que parte das reservas em resorts de luxo localizados em território moçambicano é instruída para contas bancárias sediadas fora do país.

Quando o pagamento de uma estadia em Moçambique é efectuado directamente para empresas localizadas em jurisdições estrangeiras, a transacção pode ocorrer fora do circuito fiscal e cambial nacional.

O mecanismo não é inédito no sector do turismo. Em 2026, autoridades fiscais detectaram na praia do Tofo uma estância turística que processava pagamentos através de um POS estrangeiro e utilizava software de facturação não autorizado, permitindo que parte das receitas fosse processada fora do sistema bancário moçambicano, uma prática associada a suspeitas de evasão fiscal. 

A documentação obtida pelo Confidencial sugere que estruturas semelhantes podem existir também no segmento do turismo de luxo. Neste caso, o visitante dorme em Moçambique, mas o pagamento da viagem pode ser direccionado para empresas sediadas em Jersey, nas Maurícias ou no Dubai. 

A questão cambial

Em Moçambique, todas as actividades económicas realizadas em território nacional estão sujeitas às regras fiscais e cambiais definidas pelo Banco de Moçambique e pela Autoridade Tributária. A legislação cambial estabelece que as receitas resultantes da prestação de serviços em território nacional devem ser declaradas e, quando recebidas no exterior, sujeitas às regras de repatriamento de divisas para o sistema financeiro nacional.

Os documentos analisados pelo Confidencial mostram que os pagamentos associados a reservas em alguns resorts localizados em Moçambique podem ser direccionados para contas bancárias sediadas em diferentes jurisdições.

Numa das reservas analisadas, relativa ao resort Azura Benguerra, a factura proforma indica que o pagamento deve ser efectuado à empresa Indian Ocean Eco-Islands Ltd, sediada em St Helier, Jersey, nas Ilhas do Canal.

Noutra cotação obtida pela redacção, enviada pelo resort Santorini Mozambique, o pagamento é instruído para a empresa Pansy Shell Limited, com conta bancária no Mauritius Commercial Bank, em Port Louis, nas Maurícias.

Já numa cotação enviada pelo resort Kisawa Sanctuary, o sistema de reservas indica pagamentos processados através da empresa Dodeca Reservations FZ LLC, sediada no Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

A investigação encontrou também estruturas financeiras regionais. Uma factura proforma enviada pelo resort White Pearl, em Ponta Mamoli, apresenta contas bancárias domiciliadas na África do Sul, pertencentes à empresa White Pearl Resorts (PTY) LTD, além de uma conta em meticais pertencente à empresa White Pearl Resorts Moçambique LDA, domiciliada em Maputo. Isto significa que, dependendo da conta utilizada, o pagamento da reserva pode ser efectuado fora do sistema bancário moçambicano.

Essa estrutura levanta uma questão contabilística e cambial evidente: a entidade que recebe o pagamento nem sempre é a mesma entidade que presta o serviço turístico em território moçambicano.

Quando uma estadia num resort localizado em Moçambique é paga directamente a uma empresa sediada noutra jurisdição, torna-se necessário explicar como essa receita é posteriormente registada pela empresa que efectivamente opera o empreendimento no país.

Em termos fiscais e cambiais, isso implicaria a existência de mecanismos formais de transferência entre empresas do mesmo grupo, como contratos de gestão, acordos de representação comercial ou facturação inter-empresarial devidamente declarados às autoridades competentes.

Caso contrário, surge uma pergunta fundamental: como é que o valor pago pelo turista entra efectivamente no sistema fiscal e cambial moçambicano?

como e quando esse valor regressa ao sistema financeiro nacional? A resposta a essa pergunta depende da estrutura empresarial de cada empreendimento turístico. Essa informação raramente é pública.

Um resort, várias contas... e vários países

A investigação encontrou também estruturas financeiras diferentes na forma como os pagamentos são instruídos pelos resorts.

Uma factura proforma enviada pelo resort White Pearl, localizado em Ponta Mamoli, apresenta três contas bancárias distintas para pagamento da mesma reserva.

O documento indica as seguintes opções de pagamento.

Conta em rand sul-africano (ZAR)
Titular: White Pearl Resorts (PTY) LTD
Banco: First National Bank (África do Sul)
Conta n.º: 62602802002
Branch Code: 254405
SWIFT: FIRNZAJJ

Conta em dólares americanos (USD)
Titular: White Pearl Resorts (PTY) LTD
Banco: First National Bank (África do Sul)
Conta n.º: 62683044996
Branch Code: 254655
SWIFT: FIRNZAJJ

Conta em meticais moçambicanos (MZN)
Titular: White Pearl Resorts Moçambique LDA
Banco: First National Bank
Conta n.º: 36346630130001
IBAN/NIB: MZN59 001400003634663010108
Endereço do banco: Av. 25 de Setembro n.º 420, Maputo.

As duas primeiras contas pertencem à empresa White Pearl Resorts (PTY) LTD, sediada na África do Sul. A terceira pertence à empresa White Pearl Resorts Moçambique LDA, com conta domiciliada em Maputo. Na prática, isto significa que o pagamento da reserva pode ser efectuado fora do sistema financeiro moçambicano, dependendo da conta escolhida pelo cliente, mas a África do Sul não é a única jurisdição envolvida.

Documentos enviados pelo resort Santorini Mozambique indicam que as reservas internacionais são processadas através da empresa Pansy Shell Limited, registada nas Maurícias.

Segundo as instruções de pagamento fornecidas aos clientes, as transferências devem ser efectuadas para uma conta no The Mauritius Commercial Bank Ltd, em Port Louis.

 

Titular: Pansy Shell Limited
Banco: The Mauritius Commercial Bank Ltd
País: Maurícias
Conta USD: 000445111410
IBAN: MU21MCBL0944000445111410000USD
SWIFT: MCBLMUMU

Outro documento analisado pela investigação, relativo ao resort Azura Benguerra, indica ainda uma estrutura de pagamento diferente. Nesse caso, as reservas devem ser pagas à empresa Indian Ocean Eco-Islands Ltd, com conta bancária domiciliada em Jersey, nas Ilhas do Canal.

Titular: Indian Ocean Eco-Islands Ltd
Banco: Barclays Wealth
Localização da conta: Jersey, Channel Islands
Conta n.º: 88025400
SWIFT: BARCGB22
IBAN: GB62 BARC 2045 0588 0254 00

As instruções indicam ainda a utilização de um banco correspondente nos Estados Unidos, identificado pelo código BARCUS33, utilizado para processar transferências internacionais em dólares. Nem todos os resorts seguem esse modelo.

Uma carta bancária emitida pelo Banco Comercial e de Investimentos (BCI) confirma que a empresa Indigo Bay SA possui contas domiciliadas em Maputo. Segundo o documento bancário, a empresa mantém contas no BCI com os seguintes dados.

 

Titular: Indigo Bay SA
Banco: Banco Comercial e de Investimentos (BCI)
Moeda: MZN
Conta n.º: 1639154610003

Conta adicional
Moeda: USD
Conta n.º: 1639154610004
SWIFT: CGDIMZMA
Agência: Centro Integrado Sede, Maputo.

A coexistência destes diferentes modelos mostra que o turismo de luxo na costa moçambicana opera através de estruturas financeiras distribuídas por várias jurisdições, incluindo Moçambique, África do Sul, Maurícias e Jersey.

Quando serviços turísticos prestados em território moçambicano são pagos directamente para contas localizadas no exterior, surgem questões relevantes sobre o cumprimento das obrigações fiscais e cambiais previstas na legislação nacional.

Especialistas em regulação financeira explicam que receitas geradas no país devem ser declaradas às autoridades fiscais e, em determinados casos, podem estar sujeitas às regras de reporte e repatriamento cambial definidas pelo Banco de Moçambique.

A falta de transparência sobre o circuito completo dessas receitas torna difícil determinar que parte do dinheiro gerado pelo turismo de luxo nas ilhas moçambicanas entra efectivamente no sistema fiscal do país. 

Quem domina o turismo de luxo

O turismo de luxo na costa moçambicana é dominado sobretudo por grupos internacionais ou operadores ligados a redes globais de hotelaria.

O Anantara Bazaruto Island Resort integra a rede Minor Hotels, um grupo multinacional com origem na Tailândia e operações em dezenas de destinos turísticos na Ásia, Europa, Médio Oriente e África.

O Pestana Bazaruto Lodge pertence ao Pestana Hotel Group, conglomerado português com presença em vários continentes.

O Benguerra Island Lodge é operado pela rede sul-africana &Beyond, especializada em turismo de safaris e destinos exclusivos.

Já o White Pearl Resorts, em Ponta Mamoli, opera dentro do circuito regional de turismo de luxo voltado sobretudo para visitantes internacionais provenientes da África do Sul, Europa e América do Norte.

Embora os resorts estejam localizados em praias e ilhas moçambicanas, muitos fazem parte de cadeias empresariais com sede e estruturas financeiras fora do país.

O preço do paraíso

Os valores praticados nos resorts de luxo moçambicanos colocam o país no mesmo segmento de destinos turísticos como Maldivas, Seychelles ou Zanzibar. Uma única noite numa villa pode ultrapassar facilmente mil dólares por pessoa. Durante a época alta, os preços podem ser significativamente superiores. A cotação obtida pelo Confidencial durante a simulação de reserva no Azura Benguerra ilustra esse nível de preços.

Cinco noites numa villa podem ultrapassar 13 mil dólares, incluindo transfers de helicóptero entre Vilankulo e o arquipélago.

A estadia inclui praticamente toda a experiência turística oferecida pelo resort.

Alojamento, refeições, bebidas seleccionadas e várias actividades recreativas fazem parte do pacote vendido ao visitante.

Na prática, isso significa que grande parte do valor económico da viagem é liquidado antes mesmo de o turista chegar a Moçambique.

Uma economia de enclave

Economistas do turismo utilizam frequentemente a expressão economia de enclave para descrever modelos de desenvolvimento turístico em que as unidades hoteleiras funcionam relativamente isoladas da economia local.

Nesse tipo de sistema, os resorts operam como pequenas ilhas económicas dentro do território onde estão instalados. Empregam trabalhadores locais e compram alguns produtos nas comunidades vizinhas. Mas grande parte da actividade económica associada à viagem pode ocorrer fora do país.

As reservas são frequentemente processadas em plataformas internacionais. O marketing é conduzido a partir de escritórios localizados no exterior. E os pagamentos podem ser liquidados através de estruturas financeiras sediadas noutros mercados.

Quanto dinheiro pode estar em jogo

Uma estadia num resort de luxo na costa moçambicana pode facilmente ultrapassar dez mil dólares por casal.

Considerando tarifas médias e taxas de ocupação típicas do sector – geralmente entre 60 e 70 por cento - um único resort deste segmento pode gerar entre 10 e 15 milhões de dólares por ano.

Somando apenas algumas das principais unidades da costa moçambicana, como Azura Benguerra, Anantara Bazaruto, Benguerra Island Lodge, Pestana Bazaruto e White Pearl, o volume anual de receitas pode ultrapassar 50 milhões de dólares.

Esses números ajudam a compreender a dimensão económica do turismo de luxo no país, mas também levantam uma questão relevante: como esses fluxos financeiros são registados e onde entram efectivamente no sistema económico nacional.

O que dizem os números do Banco de Moçambique

Segundo os relatórios da Balança de Pagamentos do Banco de Moçambique, as receitas registadas na rubrica Viagens, que inclui os gastos de turistas estrangeiros no país, oscilaram entre cerca de 200 e 275 milhões de dólares por ano ao longo da última década.

Antes da pandemia, em 2019, o sector atingiu aproximadamente 275 milhões de dólares. Após a queda provocada pela Covid-19, os valores começaram a recuperar.

Em 2023 e 2024, as receitas voltaram a aproximar-se dos níveis anteriores à pandemia, situando-se novamente perto dos 250 milhões de dólares anuais.

Esses números representam o dinheiro que entra efectivamente no sistema financeiro nacional.

A investigação do Confidencial, contudo, levanta uma questão difícil de medir.

Se parte das reservas de hotéis de luxo é processada através de plataformas e entidades sediadas no exterior, uma parcela das transacções associadas a essas viagens pode ocorrer fora do país antes mesmo da chegada dos visitantes.

O paradoxo do turismo de luxo

Nos últimos anos, o turismo tem sido apresentado como um dos sectores estratégicos para a diversificação da economia moçambicana.

O país promove internacionalmente as suas praias, ilhas e parques naturais enquanto concede concessões costeiras a investidores privados para o desenvolvimento de novos empreendimentos turísticos.

O crescimento do turismo de luxo mostra que esse modelo conseguiu atrair visitantes internacionais e integrar Moçambique nas rotas globais de viagens exclusivas.

Ao mesmo tempo, a investigação do Confidencial revela a complexidade financeira que caracteriza esse sector.

Para o visitante, a experiência turística acontece numa ilha tropical do Índico. Mas o percurso do dinheiro pode começar noutro país, noutra empresa e noutra conta bancária.

Os documentos analisados pelo Confidencial mostram que reservas em resorts localizados em território moçambicano podem ser instruídas para empresas e contas bancárias sediadas em Jersey, Maurícias, Dubai ou África do Sul, dependendo da estrutura empresarial de cada grupo turístico.

Em alguns casos, o pagamento da viagem pode ser processado fora do sistema financeiro moçambicano antes mesmo da chegada do turista ao país.

A dimensão financeira desse mercado ajuda a compreender a relevância da questão.

Uma única estadia num resort de luxo pode ultrapassar facilmente dez mil dólares por casal. Considerando tarifas médias e níveis de ocupação típicos do sector, um único empreendimento deste segmento pode gerar entre 10 e 15 milhões de dólares por ano.

Somando apenas algumas das principais unidades da costa moçambicana - como Azura Benguerra, Anantara Bazaruto, Benguerra Island Lodge, Pestana Bazaruto e White Pearl - o volume anual de receitas pode ultrapassar 50 milhões de dólares.

Esses números ajudam a perceber a dimensão económica do turismo de luxo no país. Mas também levantam uma pergunta essencial: como e onde essas receitas são efectivamente registadas?

Se parte das reservas é processada através de empresas e contas bancárias localizadas no exterior, torna-se necessário compreender quando e de que forma esse dinheiro entra no sistema fiscal e cambial moçambicano.

Nos próximos dias, o Confidencial irá publicar novos episódios desta investigação.

No segundo episódio, os próprios resorts terão oportunidade de explicar como funcionam as suas estruturas de facturação internacional e de que forma as receitas geradas em Moçambique são registadas contabilisticamente.

No terceiro episódio, o jornal irá ouvir a Autoridade Tributária e o Banco de Moçambique, responsáveis pela supervisão fiscal e cambial do país.

Porque no fim desta investigação permanece uma pergunta simples  e inevitável: quando um turista paga férias numa ilha moçambicana, onde entra realmente o dinheiro dessa viagem?